quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Por que os mercados voltam a temer os países emergentes?

Antes considerados um dos motores do crescimento mundial, os países emergentes deram sinais de instabilidade econômica nas últimas semanas. Brasil, Turquia, África do Sul e Índia tiveram de elevar suas taxas de juros enquanto a Argentina viu sua moeda sofrer uma forte desvalorização perante o dólar.

Por trás da turbulência estão tanto problemas internos desses emergentes como uma mudança na conjuntura internacional - sobretudo nos Estados Unidos.
Nesta quarta-feira, o Fed (banco central americano) anunciou mais uma redução em seus estímulos financeiros: vai cortar sua compra mensal de títulos do patamar atual, de US$ 75 bilhões, para US$ 65 bilhões. O motivo é o fortalecimento da economia americana, que tem precisado de menos estímulos para voltar a crescer.

Mas, na prática, isso tem impacto significativo nos países emergentes: de um lado, há menos dinheiro sendo injetado no mercado; de outro, o fortalecimento americano provoca fuga de capitais de economias menos desenvolvidas, já que o investidor ruma aos EUA em busca de mais segurança.
No Brasil, o dólar chegou nesta quarta a R$ 2,435, uma das maiores altas dos últimos anos; outras moedas estrangeiras também perderam valor perante o dólar.
Mas qual a origem dessa instabilidade? Ela pode levar a uma crise maior, como a que derrubou economias emergentes no final da década de 1990? Veja o que dizem especialistas consultados pela BBC Brasil:

Por que os mercados emergentes estão sofrendo?

Depois de terem atraído investidores no pós-crise de 2008, quando países desenvolvidos se tornaram pouco atraentes, os países emergentes já não são o destino favorito do dinheiro que circula no mercado financeiro.
De um lado, os EUA estão se recuperando, diminuindo seus estímulos financeiros e abrindo caminho para elevar suas taxas de juros - elementos que atraem os investidores, em busca de um porto seguro para seus investimentos.

"Isso leva a uma fuga de capitais, que por sua vez afeta o câmbio (desvalorizando as moedas perante o dólar) e gera um processo inflacionário (encarecendo produtos importados)", diz André Pereira Perfeito, economista-chefe do Gradual Investimentos.

A reação dos bancos centrais é aumentar as taxas de juros, para atrair investidores oferecendo uma rentabilidade mais alta. Mas é o efeito colateral o que esfria a economia - fica mais caro pegar dinheiro emprestado para abrir um negócio, por exemplo.
De outro lado, a China já não cresce na mesma velocidade, diminuindo suas compras de commodities de economias emergentes como Brasil e Argentina.

"Esse esfriamento desequilibra as balanças comerciais e o país perde a capacidade (de reter) moeda estrangeira", explica Otto Nogami, professor de economia do Insper.
Fora isso, persistem os problemas internos desses países, de infraestrutura à falta de confiança na habilidade de governos em administrar economia, que acabam perdendo a atratividade perante os olhos de investidores externos.

Os emergentes enfrentam problemas semelhantes?

O Brasil é apontado pelos especialistas como muito mais sólido do que outras economias emergentes, apesar de seus problemas conjunturais.
"Ao contrário da Argentina, que não tem conseguido gerar investimentos, o Brasil avançou no varejo, na construção civil, nos setores automotivo de de infraestrutura", opina André Perfeito, agregando que as reservas internacionais brasileiras são bem mais robustas - ou seja, o país tem mais capacidade de se manter solvente.

Segundo o economista, as reservas atuais brasileiras seriam suficientes para bancar, sozinhas, um ano e meio de importações (as da Argentina, por exemplo, durariam pouco mais de quatro meses).
Além disso, diz ele, a elevação de juros tem ocorrido de forma bem mais controlada - ao contrário da Turquia, que dobrou sua taxa de juros na última terça-feira, de 4,5% para 10%, um "ato de desespero" para evitar uma fuga maior de capitais, na visão do analista.

"O conjunto de emergentes é muito heterogêneo, e a situação dos países deve ser vista caso a caso", agrega Perfeito.

Na terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a instabilidade atual é parte de um momento de acomodação da economia mundial.

Existe o risco de uma crise maior?

As turbulências despertaram especulações quanto a um possível contágio financeiro semelhante ao que derrubou, em efeito dominó, as economias emergentes no final da década de 1990.
Para Nogami, do Insper, esse risco existe se os países não tomarem medidas para evitar um ciclo de recessão (em que a alta de juros freie a economia e a inflação tire o poder de compra das pessoas).

"Para reverter o ciclo, os governos precisam equilibrar seus gastos, controlar a inflação e resgatar sua credibilidade para atrair investimentos", diz. No entanto, para Samy Dana, professor da FGV-SP, o cenário mudou muito desde os anos 1990: "Nossas reservas internacionais estão muito maiores do que eram", explica. Ou seja, temos um "colchão" maior para conter uma eventual crise.

O mesmo vale para outros países emergentes, cujas dívidas em dólar também não são tão grandes.
Além disso, no caso do Brasil, a moeda local está muito mais consolidada (nos anos 1990, o real era uma moeda nova e recém-estabilizada), explica Perfeito.
"Não acho que o cenário seja tão ruim o quanto estão pintando", diz o economista. "Até porque não vale a pena para os EUA manterem sua moeda tão valorizada (perante moedas emergentes) num momento em que tenta se recuperar economicamente."

A Argentina, porém, vive situação muito mais frágil, com baixas reservas internacionais, uma economia bem menos diversificada que a do Brasil e sinais de esgotamento do modelo adotado pelo governo Kirchner.

O diretor do departamento Monetário e de Mercado de Capitais do FMI, José Viñals, declarou à imprensa nesta sexta-feira que "a situação não é de pânico" e que a turbulência nos emergentes ocorre porque os emergentes "ainda não se ajustaram a condições externas mais voláteis".

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Duarte Forex Group - Análise Diário 29/01/2014 (FOMC)


Investidores aguardam decisão do BC dos EUA sobre estímulo econômico

Investidores de todo o mundo aguardam, nesta quarta-feira (29), uma decisão do Federal Reserve, o Fed, banco central dos Estados Unidos, sobre a continuidade de sua política de estímulos econômicos.

A maioria dos analistas consultados pela agência de notícias Reuters avalia que o Fed deve reduzir seu pacote de compra de títulos em mais US$ 10 bilhões neste mês, para US$ 65 bilhões.

O estímulo já foi reduzido de US$ 85 bilhões mensais para US$ 75 bilhões por mês em dezembro. Na ocasião, Fed indicou que deveria continuar reduzindo seu estímulo, se os dados de emprego e inflação continuassem melhorando.

Mudança pode 'tirar' dólares de países emergentes

Desde o início do programa, o Fed injetava US$ 85 bilhões nos mercados todos os meses, em um programa conhecido como QE3.

O BC americano utiliza uma ferramenta clássica de política econômica para fazer essa injeção de recursos: a compra de títulos públicos (pedaços da dívida estatal, vendidos pelo Tesouro dos EUA) em mãos de investidores e bancos.

Sem essa enxurrada de dólares e com juros mais altos nos EUA, os investidores tendem a preferir opções consideradas mais seguras, e tirar recursos de países emergentes.
Dólares baratos que alimentaram um boom no Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul na última década diminuíram desde que o Fed alertou, em maio de 2013, sobre a possível redução do esquema de compra de títulos dos EUA.


Troca de comando

A reunião do Fed, que termina hoje, é a última com Ben Bernanke na presidência. Ele será substituído por Janet Yellen, que foi indicada pelo presidente Barack Obama.

Em oito anos à frente do Fed, Ben Bernanke adotou medidas consideradas heterodoxas pelo mercado. Ele estruturou um balanço patrimonial de US$ 4 trilhões, e manteve as taxas de juros do país próximas de zero por mais de cinco anos, em uma tentativa de tirar a economia da pior recessão em décadas.

Agora, o Fed avalia que as medidas estão começando a surtir efeito, baseado em dados mais positivos sobre o crescimento dos empregos no país. Em contrapartida, essa emissão bilionária de dinheiro pode causar prejuízos ao país a longo prazo.

Apesar de estar levando a cabo a redução do estímulo, uma alta na taxa de juros está distante. As autoridades devem manter a promessa de deixar as taxas perto de zero até bem depois que a taxa de desemprego, agora em 6,7%, caia a 6,5%. O Fed vai anunciar sua decisão às 17h (horário de Brasília).